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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Ética em Enfermagem - Uma Luz com Futuro

Voltamos aos artigos de opinião no Sala-de-Enfermagem.
Desta vez temos para apresentar um artigo original da autoria da Enfermeira Nisa Gomes. Enfermeira no Hospital de Santo António dos Capuchos, observadora atenta da realidade no seu blogue "Rebenta a Bolha" e, por fim, redactora associada do Sala-de-Enfermagem.



Ética em Enfermagem
Uma Luz com Futuro

Decorreu no dia 26 de Setembro no Grande Auditório da Faculdade de Ciências de Lisboa, Campo Grande, o IX Seminário de Ética da Ordem dos Enfermeiros subordinado à temática “10 Anos de Deontologia Profissional, 60 Anos de Direitos Humanos”.

Com grande ênfase à abordagem dos direitos humanos enquanto base para o desenvolvimento e argumento da Deontologia, este seminário contou com a presença da Digníssima Bastonária da Ordem dos Enfermeiros Enfª Maria Augusta de Sousa, Professor Doutor Silveira de Brito, Professor Doutor Daniel Serrão, Enfª Teresa Oliveira Marçal, Enfº José Cerqueira, Enfª Merícia Bettencourt, Enfª Margarida Vieira, Enf.ª Lucília Nunes e Enf. Sérgio Deodato, entre outros. Todos os conteúdos expostos e debatidos encontram uma área comum de significância que reflecte a sua interdependência.

Pela sua complexidade, Ética e Deontologia encadeiam-se embora caracterizem entidades diferentes. Enquanto a primeira se rege pela noção do que é bom, a vida boa, poder-se-á fazer referência à Deontologia quando se integra o saber que remete para o saber fazer que diz respeito à praxis profissional. Neste sentido, e de acordo com Oliveira de Brito na sua intervenção, a Deontologia Profissional totaliza-se pelos deveres e obrigações do profissional, entendidos enquanto normas que orientam o seu desempenho. Já o Código profissional que inclui os valores, princípios e normas da profissão constitui o instrumento e não a finalidade em si, em uso no empenho profissional.

Sendo assim, e como reforçado por Oliveira de Brito, o Código Deontológico (CD) pode ser percebido como a exteriorização dos valores que devem reger a profissão e que se materializa pelos Direitos Humanos enquanto fundamento-base de todos os CD.

Face à criação e consolidação do CD, instrumento de e para a profissão, o Juramento cria um compromisso ético em que o profissional se consciencializa do seu papel e das possibilidades interventivas situadas num quadro ético-deontológico. O Juramento como compromisso profissional face à liberdade e dignidade humanas e do enfermeiro, o respeito pelos princípios e valores que regem a profissão, o altruísmo, a liberdade responsável, verdade e justiça, a procura da qualidade no exercício profissional, elementos que merecem destaque diário e um esforço constante por parte de todos os enfermeiros envolvidos no sentido de se valorizar um dos aspectos mais complexos e importantes no campo profissional – ético-deontológico.

A protecção da vida e a protecção da saúde interagem reciprocamente com o direito à protecção da saúde e direito ao cuidados de saúde pelo que e percebe de imediato a sua interligação com os Direitos Humanos através da relação com o cliente/utente, que prefiro nesta circunstâncias tratar por pessoa. Assim o é também afirmado por Lucília Nunes cuja intervenção no decorrer deste Seminário foi exemplo para a continuação da aposta no desenvolvimento profissional multidimensional que integra, quer as cinco áreas de actuação definidas no Regulamento do Exercício Profissional do Enfermeiro, quer as que se intercruzam, como as que concernem à vertente mais relacional ou humana e que é diariamente alvo evidente de desvalorização por parte de alguns profissionais de saúde e motivo de descontentamento por parte da sociedade.

Na verdade, se se verificar que os enfermeiros se deparam constantemente com dilemas éticos e necessidade permanente de tomar decisões complexas cuja resolução está dependente dos valores e princípios éticos, morais e legais, de orientações de conduta, de repente nos apercebemos da importância que esta dimensão assume no campo profissional.

Finalmente, é crucial perceber que a sociedade tem expectativas, que espera algo da actuação dos enfermeiros e que tende a valorizar a sua dimensão moral, sendo que as virtudes institucionais – saber, respeito, serviço, competência e justiça – comprometem o profissional para um maior esforço que concorre para a qualidade no seu desempenho (Ordem dos Enfermeiros, 2005). Importa por isso reflectir ma acima de tudo integrar essas reflexões no exercício diário junto das pessoas que são alvo/parceiros nos cuidados e que merecem uma assistência digna da sua condição humana e particular.

Enf.ª Nisa Gomes

Referência bibliográfica:
ORDEM DOS ENFERMEIROS – Código Deontológico do Enfermeiro: dos Comentários à Análise de Casos. Lisboa: Ordem dos Enfermeiros, 2005.

Inimici sui amicum nemo in amicitia sumit. (*)


1) No seguimento das intervenções que a Ordem dos Enfermeiros tem vindo a desenvolver e, após a divulgação da Tomada de Posição sobre a Administração de Vacinas e Injectáveis nas Farmácias - divulgada a 1 de Setembro e suportada num parecer do Conselho de Enfermagem da Ordem dos Enfermeiros - a OE teve conhecimento que colegas que inicialmente tinham aceite realizar acções de formação a farmacêuticos suspenderam a sua disponibilidade para tal.

A Ordem dos Enfermeiros congratula-se com compreensão, por parte dos colegas, da problemática que tais atitudes envolvem para a profissão e com o trabalho desenvolvido pelos Presidentes das Secções Regionais da Ordem dos Enfermeiros, nomeadamente das Secções Regionais do Centro e do Sul, na sensibilização dos colegas para esta matéria.


2) Está a Ordem dos Enfermeiros a elaborar um dossiê com as informações de que tem conhecimento, bem como sobre irregularidades verificadas em farmácias, para preparar a sua intervenção.


3) Está ao dispor de todos os membros, NA ÁREA RESERVADA DO SITE, o parecer nº 60/2008 do Conselho de Enfermagem, subordinado ao tema «ORIENTAÇÕES TÉCNICAS PARA A VACINAÇÃO EM SECTOR PRIVADO».


4) Será divulgada informação aos membros sobre o resultado da reunião que se realizará a 23 de Outubro com a Ordem dos Farmacêuticos.


Fonte: Ordem dos Enfermeiros (Link)


O Sala-de-Enfermagem aplaude de pé.

(*)-Não pode ser meu amigo o amigo de meu inimigo.



quarta-feira, 22 de outubro de 2008

1.º Grande Arraial na Farmácia Alfredo (com música a combinar...esse som no máximo!)



(imagem humorística original, toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência)

Okay, a música é boa...mas tentem ler o artigo...vá lá...

Como se não bastassem os últimos avanços por parte de profissionais de áreas distintas, como os farmacêuticos, eis que chega ao correio electrónico de um dos redactores o seguinte anúncio:

Curso de Formação: Auxiliar de Geriatria
Instituto de Ciências da Saúde do Porto
Área de formação: Saúde
Modalidade: Presencial

Distrito: Porto

Preço: 500,00 €

Data Inicio: quinta-feira, 13 de Março de 2008
Duração: 4 meses
Horário: Laboral e Pós Laboral
Local: Rua Júlio Dinis, 748 - 7º andar - 4050-012 Porto (ao Parque Itália)
Número de horas: 100 horas
Objectivos: O curso tem como objectivo dotar os formandos dos conhecimentos e das competências técnicas necessárias para apoiar idosos em instituições ou no seu domicílio.
Programa: Os serviços de prestação de cuidados a idosos (lar de terceira idade;centro de dia,apoio domiciliário) Saúde e cuidados básicos no idoso (Higiene, Alimentação e nutrição do idoso Administração de medicamentos, Incontinência, Úlceras por pressão: prevenção e tratamento, Reabilitação), Gerontologia (Psicologia do idoso,Problemas neurológicos nos idosos,O idoso no confronto com a morte,Como auxiliar os processos de luto no idoso,a importância da reciclagem dos papéis de vida) Promover a qualidade de vida do idoso (Terapia ocupacional,Animação sócio-cultural com idosos) O apoio ao cuidador (Auxiliar o cuidador nos cuidados básicos a ter com o idoso, O apoio psicológico ao cuidador em caso de doença grave ou morte do idoso.


Se não questionamos a pertinência do ponto prevenção, o mesmo não acontece com o ponto tratamento. A menos que, ridiculamente, se limite a "chamar o enfermeiro". É mais um episódio da novela "Enfermeiros? Para quê?". Uma vez que vivemos num país pejado de "super-farmacêuticos-que-sabem-e-fazem-tudo-menos-neurocirurgia-e-transplantes" e, mais recentemente, de "auxiliares-de-geriatria-responsáveis-pela-reabilitação-e-especialistas-em-tratamento-de-feridas" a questão que se impõe é:


Para quê mais médicos e enfermeiros?

Surpreendentemente:

Farmácias vão prestar primeiros socorros:
Os farmacêuticos vão passar a assistir doentes através de cuidados de suporte básico de vida – oxigenar alguém com um ataque de asma ou fazer manobras de reanimação a um diabético com hipoglicemia. A lei permite, a Ordem dos Farmacêuticos (OF) aproveita. E fez um acordo com a Cruz Vermelha Portuguesa para formar os profissionais.
José Mário Miranda, membro da direcção da OF, explica que as farmácias aderentes vão ter um símbolo a identificar que ali se prestam, gratuitamente, cuidados deste tipo.

Ler notícia completa aqui. (clique para ler)

Nós, por cá, gostamos em especial desta notícia. Aliás, aplaudimos de pé. E que tal fechar todos os hospitais? Na compra de duas caixas de Valium oferecemos uma reanimação pós-tentativa de suicídio! Ou na compra de um Vibrocil Gotas Nasais oferecemos uma hora de oxigénio totalmente grátis?

E quem é o responsável pelos cuidados? O senhor Alfredo da farmácia, ajudante técnico de profissão, mas muito simpático! Sim porque o sôtor não está. Está nas Maldivas a gozar os rendimentos provenientes da cartelização e venda de drogas (lícitas...mas drogas). Em breve vai poder fazer a sua cirurgia LASIK(TM) numa farmácia perto de si, a sua trombólise numa farmácia perto de si, a sua Colangiopacreatografia Retrógrada Endoscópica (CPRE) numa farmácia perto de si....e a questão que se põe é:

Para quê manter hospitais abertos?

(No Sala de Enfermagem...lamentamos a música...vai um pézinho de dança?)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Bonis nocet qui malis parcet

CLIQUE PARA AUMENTAR
(Fluxograma retirado de Doutor Enfermeiro)


Se julga ser importante lutar pelos direitos da população portuguesa, no que concerne à segurança, fiabilidade e confiança na imunização coloque uma destas imagens no seu blogue. Pela segurança de todos, pela segurança na vacinação!





domingo, 12 de outubro de 2008

Cuidados Paliativos são pela vida!

Aproveitando o ensejo para, depois de obviamente lembrar que ontem foi (ver artigo em baixo) o "Dia Mundial dos Cuidados Paliativos", o Sala de Enfermagem deixa-vos um artigo excepcional,

da Autoria da Enf.ª Paula Sapeta, Professora-Coordenadora e Presidente do Conselho Científico da Escola Superior de Saúde Dr. Lopes Dias e Membro da Direcção da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos.



Este artigo foi publicado no Jornal semanário "Reconquista"



ARTIGO COMPLETO (CLIQUE PARA LER).



No Sala de Enfermagem, aplaudimos de pé. E subscrevemos.


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Novos Heli's do INEM para 2009.


O presidente do INEM, Abílio Gomes, afirmou ontem que os concursos para o aluguer de três helicópteros a instalar em Ourique, Macedo de Cavaleiros e Aguiar da Beira deverão ser lançados "em breve". Estes aparelhos, tripulados por enfermeiros, deverão começar "a funcionar em 2009".

Anunciados pelo Governo como reforços em troca do fecho de SAP e Urgências, os helicópteros foram questionados pelo próprio presidente doINEM. Tendo por base um estudo técnico, Abílio Gomes afirmou em Julho que "houve uma nova adaptação dos pontos de rede e os pressupostos que levaram à expectativa de novos meios aéreos já não se verificam". Ontem, o responsável disse apenas: "Em última análise, quem decide é a tutela. Nós temos a obrigação de executar o projecto da tutela."

Não é novidade...são apenas é maior número. Isto é, se a tutela deixar...

CM: Ler notícia AQUI. (clique para ler)

Imagem:Bombeiros de Portugal.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Desmame Precoce – Análise dos Indicadores de Saúde em Crianças dos Zero aos Cinco Anos


Trabalho de conclusão do curso de Especialização em Saúde da Família, realizado na cidade de Laranjal do Jarí, estado do Amapá, sob orientação do professor João Farias Trindade.

Por:
Domingos de Oliveira-Enfermeiro do P.I.T.S./AP/L.J.(BR)
Luciane Alves Ribeiro-Enfermeira do P.I.T.S. /AP/L. J.(BR)


quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A Ansiedade no Doente Cirúrgico (Artigo)

"A explicação das rotinas do serviço e dos procedimentos que envolvem a cirurgia, não deve de modo algum ser descurada, pois serve para eliminar o medo do desconhecido."


Vítor António Soares Santos

Enfermeiro do Bloco Operatório do Hospital São Pedro Gonçalves Telmo

Formador na área da enfermagem Perioperatória na FORMASAU , Formação e Saúde Lda.


Resumo

Actualmente ninguém coloca em questão, que intervenção cirúrgica é uma experiência geradora de ansiedade para o utente, tanto a nível psicológico, como fisiológico, na medida em que o utente tem pouco controlo sobre a situação. Esta ansiedade é variável de utente para utente e são vários os factores que estão na sua origem.

Assim, são frequentes os sentimentos relacionados com a ansiedade, medo do desconhecido e impotência.


Ansiedade

De acordo com KAPLAN, SADOCK e GREBB (1997:545), a ansiedade é “…uma vivência comum de virtualmente qualquer ser humano.”, é uma sensação que se caracteriza por “…um sentimento difuso desagradável e vago de apreensão, frequentemente, acompanhado por sintomas autonómicos como cefaleia, perspiração, palpitações, (…) inquietação.”

Esta definição está de acordo com STUART e LARAIA (2001:306), que afirmam tratar-se de “…uma emoção e uma experiência individual subjectiva.” De acordo com estes mesmos autores o termo ansiedade, deriva da palavra latina “angere”, que significa “estrangular” e “causar sofrimento”.

DAVIDOFF (1983:440), por seu lado surge com o conceito de ansiedade como “… uma emoção caracterizada por sentimentos de previsão de perigo, tensão e aflição e pela vigilância do sistema nervoso simpático.” Esta definição lembra-nos a parte fisiológica da ansiedade, o stress. De acordo com CASSMEYER e MARANTIDES (2003:130), “a ansiedade é uma reacção psicológica a factores de stress, com componentes fisiológicas e psicológicas.”

Esta ideia é reforçada por NEEB (1997:185), que afirma “o stress provoca ansiedade”, este na maioria dos casos é associado a situações negativas, embora as coisas positivas da vida também produzam stress. De acordo com a mesma autora, “este stress resultante de experiências positivas é denominado de eustress.” (NEEB, 1997:185), este eustress pode produzir tanta ansiedade quanto os factores de stress negativos.

De acordo com CASSMEYER e MARANTIDES (2003:122), “a reacção ao stress inclui componentes de carácter intelectual, comportamental e emocional, como actos de tomada de decisão, recusa e raiva, bem como componentes fisiológicas.”


Fisiologia da Ansiedade

As componentes fisiológicas e suas secreções, as hormonas e catecolaminas, são responsáveis pela resposta neuroendócrina aos factores de stress. Segundo CASSMEYER e MARANTIDES (2003:122), “o hipotálamo estimula a hipófise anterior, libertando hormonas…”, que vão estimular a libertação de catecolaminas, cortisol, aldosterona e hormona antidiurética. A adrenalina e a noradrenalina, são catecolaminas associadas à excitação dos receptores α e β adrenérgicos. A estimulação destes receptores influencia, por exemplo o aumento da actividade cardíaca e a broncodilatação.

Já o cortisol é libertado pelo córtex supra-renal, sob controlo hormonal, e de acordo com CASSMEYER e MARANTIDES (2003:124), “tem os seus efeitos principais no metabolismo da glucose, no metabolismo proteico e lipidico e no equilíbrio hidroelectrolitico; tem também efeitos anti-inflamatórios e imunossupressores.” Segundo as mesmas autoras, o cortisol aumenta também os efeitos de outras hormonas e catecolaminas na manutenção do débito cardíaco e da pressão arterial. CASSMEYER e MARANTIDES (2003:124), voltam a reforçar esta ideia, explicando que:

      “O efeito do cortisol no metabolismo, nos líquidos e nos electrólitos, para além da sua acção permissiva noutras hormonas, parece lógico como reacção às necessidades do organismo em presença de factores de stress. No entanto, os efeitos anti-inflamatórios e imunossupressores parecem ilógicos, na medida em que poderão ser mais nocivos do que úteis.”

Por seu lado a aldosterona é libertada no córtex supra-renal, e vai provocar a reabsorção de água e sódio, e a excreção de potássio e iões de hidrogénio. Segundo CASSMEYER e MARANTIDES (2003:124), este efeito fisiológico tem como fim, “… manter o volume vascular e a pressão arterial.”

Quanto à hormona antidiurética, também conhecida como vasopressina, esta é libertada pela hipófise posterior, após estimulação do hipotálamo. Esta hormona também actua nos tubulos distais e canais colectores renais, provocando reabsorção de água, embora “em concentração elevada, pode resultar em vasoconstrição das arteriolas e pode ajudar a aumentar a pressão arterial.” (CASSMEYER e MARANTIDES, 2003:126).


Ansiedade vs Medo

A ansiedade e o medo são dois conceitos distintos. De acordo com CASSMEYER e MARANTIDES (2003:130), “a ansiedade é um sentimento de apreensão ou desconforto, com origem não reconhecida.”, que difere do medo, na medida em que este “é um sentimento de apreensão focalizado numa fonte reconhecida.” O objecto do medo é fácil de especificar, enquanto que o objecto da ansiedade não é claro, tal como refere KAPLAN, SADOCK e GREBB (1997:545), “a ansiedade é uma resposta a uma ameaça desconhecida, interna, vaga ou de origem conflituosa.” Por seu lado DAVIDOFF (1983:441), acrescenta que em termos de intensidade, a intensidade do medo é proporcional à magnitude do perigo, enquanto que na ansiedade, a sua intensidade “…tem a probabilidade de ser maior do que o medo objectivo (se for conhecido).”


Intensidade da Ansiedade

No que concerne à intensidade da ansiedade, PEPLAU, citado por STUART e LARAIA (2001:306,307), identificou 4 níveis de ansiedade:

  • “A ansiedade leve está associada com a tensão da vida quotidiana. Durante esse estágio o indivíduo está alerta e o campo de percepção aumentado. A pessoa vê ouve e apreende mais que antes.(…)

  • A ansiedade moderada, na qual o indivíduo concentra-se apenas em suas preocupações imediatas, envolve o estreitamento do campo de percepção, já que a pessoa vê, escuta e apreende menos. (…)

  • A ansiedade intensa é marcada por uma redução significativa no campo da percepção. O indivíduo tende a focalizar um detalhe específico e a não pensar em qualquer outra coisa. (…)

  • O pânico está associado com perplexidade, temor e terror. (…) O indivíduo não consegue funcionar mais como um ser humano organizado. (…) A pessoa em pânico é incapaz de comunicar ou de funcionar efectivamente. Esse nível de pânico não pode persistir indefinidamente, pois é incompatível com a vida.”

Assim, facilmente se depreende que podemos ir desde um estadio que pode motivar aprendizagem e produzir desenvolvimento (ansiedade leve), passando por outro estadio em que o indíviduo se abstém de determinados aspectos e foca-se num aspecto em particular (ansiedade moderada), passando por outro em que se direcciona toda a atenção e acção para o alivio da ansiedade, com grande diminuição da percepção (ansiedade intensa) e eventualmente atingir um estadio extremo em que exista maior actividade motora, menor capacidade de se relacionar com os outros, percepções distorcidas e perda do pensamento racional (pânico).

A ansiedade pode também afectar a aprendizagem, pois, de acordo com DAVIDOFF (1983:444), “em termos do nosso modelo de memória (…), a ansiedade pode influenciar a codificação, armazenamento e/ou recuperação.” De acordo com a mesma autora, as pessoas ansiosas podem sentir problemas de codificação que interferem na colocação da informação na memória.


Causas da Ansiedade

Na génese da ansiedade, estão vários factores. FREUD citado por DAVIDOFF (1983:442), refere dois grupos de factores desencadeantes do estado ansioso: “… perigos do mundo real e (…) previsão de punição por expressar impulsos sexuais agressivos ou outras formas proibidas (…) comportamento imoral.” No primeiro grupo temos, o facto da ansiedade ser causada por situações reais que levam ao sofrimento físico, enquanto que no segundo grupo a ansiedade é causada por cognições. De acordo com DAVIDOFF (1983:442), “…tanto os conflitos cognitivos, como as situações potencialmente perigosas parecem capazes de excitar ansiedade.”

Cirurgia como causa de Ansiedade

Mesmo que para os profissionais de saúde, algumas intervenções cirúrgicas sejam consideradas como pouco complexas, a cirurgia é sempre um processo marcante para o utente e família. De acordo com LONG (1999:456), “a cirurgia é um desencadeador de stress, tanto psicológico (…) como fisiológico (…).” Assim a cirurgia é portanto, uma ameaça potencial ou mesmo real para a integridade corporal do indivíduo, enquadrando-se perfeitamente no grupo dos factores desencadeantes de stress, do mundo real.

De acordo com NETO e NETO (1995:63), como factores geradores de stress pré-operatório mais comuns, temos o modo como o doente é admitido, a mudança de estatuto, o conceito de anestesia/intervenção cirúrgica e a rotura com o quotidiano. Como outros factores, que produzem stress tanto no doente cirúrgico, como no doente do foro médico em contexto hospitalar, temos a perda da independência, a presença de circunstâncias não familiares, separação do conjugue, problemas económicos, isolamento de outras pessoas, separação da família, falta de informação e ameaça de doença grave.

No que concerne ao modo de admissão, é determinante “…a familiarização com o hospital, com o serviço onde irá ficar internado, com o cirurgião que o irá operar, com a equipe de enfermagem que o vai cuidar.” (NETO e NETO, 1995:63). De modo a minimizar o desencadeamento de stress, o doente também deverá ficar ao corrente da sua situação e de como irá decorrer a intervenção cirúrgica. Deve-se ter em conta, que apesar de toda a preparação prévia, há sempre uma certa ansiedade, quanto mais não seja, relacionada com a entrada num meio novo e desconhecido. Assim a mudança de estatuto, provocada pela hospitalização, faz com que a pessoa se sinta doente mesmo que não esteja. De acordo com NETO e NETO (1995:64), trata-se de “…um fenómeno próprio do meio hospitalar, onde o conceito de doente predomina.” Assim é induzido um comportamento de estar doente, com todas as suas implicações psicológicas. A hospitalização e a mudança de estatuto, vão originar por sua vez a rotura com o quotidiano, pois de acordo com NETO e NETO (1995:65), “A vida familiar, o trabalho, os projectos, o ritmo de vida, as actividades de lazer…todas as referências que organizam a vida quotidiana ficam à porta do hospital.” De facto um novo ritmo é imposto ao utente, que inclui novo horário para despertar, novo horário de refeições e uma série de novas normas para cumprir. A inactividade forçada e a dependência verificada em algumas situações, são duramente ressentidas pela maioria dos utentes, o que se justifica pelo facto da sociedade atribuir ao trabalho um valor essencial. Ainda que o seu peso seja relativo nesta matéria, “As visitas são um aspecto importante, pois com a sua presença podem ser compartilhadas as preocupações e as inquietações.” (NETO e NETO, 1995:65). Assim, deste modo, o utente apesar de se encontrar internado, pode ter acesso a uma pequena parte do seu quotidiano.

Por seu lado, tanto a anestesia como a intervenção cirúrgica são factores geradores de ansiedade/stress. De acordo com NETO e NETO (1995:64), “a anestesia, provocando a perda de consciência, na maior parte dos doentes poderá significar meio caminho andado para a morte.” A intervenção cirúrgica causa inquietude, não por si própria, mas pelo mistério que envolve a sala de operações. Segundo NETO e NETO (1995:65), a sala de operações é um meio misterioso, “…por ser o local onde se exerce um poder, – o poder sobre a vida e sobre a morte.” Esta percepção de anestesia e cirurgia, varia, de acordo com as eventuais experiências anteriores, sejam elas positivas ou negativas, dos utentes.


Papel do Enfermeiro

É fundamental que o Enfermeiro desenvolva a sua actividade no sentido de reduzir a ansiedade do utente, tendo como pedra angular de todo o processo as seguintes premissas:

  • Abordagem calma, simples e concisa da situação

  • Proporcionar um ambiente calmo

  • Promover a análise de sentimentos

  • Promover a utilização de mecanismos de coping, que ajudem a diminuir a intensidade da ansiedade para níveis que proporcionem ao utente um maior controlo sobre a situação

Este trabalho pode ser desenvolvido na admissão do utente e durante o seu internamento, se for o caso, assim como durante a Visita Pré-Operatória de Enfermagem, que assume grande importância na medida em que vai ser nesta ocasião que o utente vai ter o primeiro contacto com o Bloco Operatório, nomeadamente com os Enfermeiros deste serviço.

Assim, é portanto fundamental, que na admissão, o doente seja abordado calmamente, procurando perceber que representações é que este tem acerca da situação e esclarecer eventuais dúvidas. É importante que o doente sinta algum controlo sobre a situação, sendo que uma forma simples de lhe transmitir essa sensação, passa por exemplo, por apresentar o serviço de internamento (estrutura fisica, pessoal). A explicação das rotinas do serviço e dos procedimentos que envolvem a cirurgia, não deve de modo algum ser descurada, pois serve para eliminar o medo do desconhecido. Mas o cuidar não é feito apenas de transmissão de informações. Durante todo este processo, é fundamental escutar o doente atenta e pacientemente, assim como fazer uso do toque, no sentido de comunicar através do contacto táctil, transmitindo a segurança que por vezes as palavras não conseguem transmitir. Por último, não devemos esquecer o papel da família em todo o processo, que deve ser incluida desde o inicio nos ensinos e utilizada como recurso, no reforço dos mecanismos de coping do doente.


Conclusão

A hospitalização, implica uma mudança de estatuto, para o individuo, particularmente quando o seu estado de saúde é grave, ou envolve um procedimento invasivo, como a intervenção cirúrgica. O desconhecimento acerca do que o espera, potencia bastante a intensidade da ansiedade experimentada pelo utente.

Qualquer um de nós pode ter de ser submetido a uma intervenção cirúrgica, sendo que é certo o aumento da intensidade da ansiedade, independentemente do suporte e representações que tenhamos acerca do acontecimento cirúrgico. Os Enfermeiros, devem portanto incluir a psicologia e a espiritualidade na abordagem ao utente e suas famílias, de modo a proporcionarem cuidados verdadeiramente holísticos.


Bibliografia

  • CASSMEYER, V.; MARANTIDES, D.- “Stress, Factores de Stress e Gestão do Stress”, In: PHIPPS, W. et al – Enfermagem Médico-Cirúrgica: Conceitos e Prática clínica. 6ª ed., Loures, Lusociência, 2003, ISBN: 972-8383-65-7

  • DAVIDOFF, L. L.- “Introdução à Psicologia”, São Paulo, Mc Graw-Hill, 1983.

  • KAPLAN, H.; SADOCK, B.; GREBB, J.- “Compêndio de Psiquiatria: Ciências do comportamento e Psiquiatria”, Porto Alegre, Artes Médicas, 1997 ISBN: 85 – 7307 – 211 - 3

  • LONG, B. – “Enfermagem Pré-Operatória”, In: PHIPPS, W. et al – Enfermagem Médico-Cirúrgica: Conceitos e Prática clínica. 4ª ed., Lisboa, Lusodidacta, 1999 ISBN: 972-96610-0-6

  • NEEB, K.– “Fundamentos de Enfermagem de Saúde Mental”, Loures, Lusociência, 1997 ISBN: 972-8383-14-2

  • NETO, H.; NETO, A.- “Factores Geradores de Stress Pré-operatório”, in Servir, Lisboa, vol. 43, nº 2, Março/Abril, 1995

  • STUART, G.; LARAIA, M.– “Enfermagem Psiquiátrica: Princípios e Prática”, 6ª ed., Porto Alegre, Artmed Editora, 2001 ISBN: 0-8151-2603-4

1º Congresso Nacional de Urgência Polivalente


O Centro Hospitalar de Lisboa Central, E.P.E. organiza nos dias 10 e 11 de Outubro de 2008, o primeiro Congresso Nacional de Urgência Polivalente.

O evento decorrerá no Auditório da Escola Superior de Enfermagem Artur Ravara, no Parque das Nações, em Lisboa.

Inscrição
- Valor da inscrição: 50€
- Pagamento por transferência bancária: NIB - 000 700 210 022 122 000 616

As inscrições devem ser enviadas para o email congresso.urgencia@gmail.com com o comprovativo da transferência e os seguintes dados:
Nome, Morada, Código Postal, Localidade, Telefone, E-mail, Local de Trabalho e respectivo telefone, Grupo Profissional.

São aceites inscrições até ao dia 30 de Setembro.

Para mais informações: Clique Aqui.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

"Como salvar uma vida." (Curso intensivo de 20 horas!?)


Se alguém duvidava que os tempos eram de vigilância, eis que surge, desta vez com a chancela da Ordem dos Farmacêuticos (secção regional de Lisboa). O Presidente da supracitada secção, citado no blogue Doutor Enfermeiro, refere que:


"(...) A propósito de as vacinas começarem a ser administradas nas Farmácias (acto técnico cuja validade diz respeito à Ordem dos Enfermeiros), "Farmacêuticos vão aprender a reanimar doentes "!

"A Ordem [dos Farmacêuticos] vai realizar cursos em conjunto com o Instituto Egas Moniz, mas a Associação Nacional de Farmácias, várias cooperativas e institutos do ensino superior vão fazê-lo"
"Os cursos têm 20 horas e vão começar em Setembro, para que os conhecimentos estejam frescos a partir de Outubro".


A formação irá permitir [segundo a Ordem dos Farmacêuticos, "reforçar conhecimentos de suporte básico de vida, que foram apreendidos na universidade". Normalmente, não há efeitos secundários, porém, se houver casos de choque anafiláctico (alergia), "pode ser preciso fazer reanimação ou tratar, localmente, as reacções alérgicas", diz (...)".


O que, certamente o Presidente da Secção Regional não se recordou é que o choque anafilático, quando não encaminhado rápida e correctamente pode levar a Paragem Cárdio Respiratória. E, segundo as indicações do ECR (2005) e do Centro de Formação Médica do INEM (2006) é "pouco provável que a vitima recupere apenas com Suporte Básico de Vida(...) sendo o acesso ao Suporte Avançado de Vida e à Desfibrilhação Precoce (se ritmo cardíaco compatível) uma prioridade". Ora, dificilmente este curso de 20 horas permitirá um conhecimento abrangente sobre fisiologia em PCR...e certamente que não permite uma avaliação experiente, complexa, multifactorial e reservada até aos dias de hoje para médicos e enfermeiros. Se existe a leve possibilidade (real ainda por mais) de um procedimento técnico levar a situações desta gravidade então não deveriam de ser levados a cabo em ambientes seguros e controlados com acesso a médico e enfermeiro imediato? Ou devemos esperar que 20 horas de ténue formação permitam efectuar Suporte Básico de Vida enquanto, desesperadamente, se aguarda a activação e deslocação de uma VMER?

Formação e Novos Cursos

A Learn&Care, uma empresa de formação, especialista na formação em cuidados de saúde, e que é detida pela Primus Care, cuja a actividade foca-se na prestação de cuidados de saúde e apoio domicliário. Anunciou a abertura, para Outubro, das seguintes Acções de Formação:


Curso "Administração de Terapêutica Subcutânea e Hipodermóclise"
Datas: 4 de Outubro a 8 de Novembro.
Duração: 32 Horas.
Destinatários: médicos e enfermeiros



Curso "Tratamento de Feridas"
Datas: 7 de Outubro a 27 de Novembro.
Duração: 60 Horas.
Destinatários: enfermeiros



Curso "Intervenções de Enfermagem em Técnicas Dialíticas"
Datas: 6 de Outubro a 26 de Novembro.
Duração: 60 Horas.
Destinatários: enfermeiros



Curso "Suporte Básico de Vida e Traumatologia"
Datas: 7 de Outubro a 27 de Novembro.
Duração: 60 Horas.
Destinatários: enfermeiros


Mais informações disponíveis em: http://www.learnandcare.com/quemsomos.htm

"A LEARN&CARE tem a missão de promover, organizar e gerir acções de formação dirigidas a profissionais e cidadãos com necessidades específicas, quer formação aberta, quer formação especializada. Tem como públicos alvo, enfermeiros, auxiliares de acção médica, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala, psicólogos e ainda outros grupos para os quais as contribuições da enfermagem e das ciências humanas e sociais podem ser relevantes para as práticas profissionais e para a valorização dos recursos humanos: educadores, formadores, técnicos superiores de serviço social, “cuidadores informais”, entre outros."

(in http://www.learnandcare.com/quemsomos.htm, online em 17 de Setembro de 2008, às 15:56)